Quando “as infâncias” viram apenas uma palavra bonita
21 de setembro de 2026
Uma reflexão sobre como o vocabulário contemporâneo pode ampliar a compreensão das crianças — ou apenas conferir legitimidade a práticas que continuam adultocêntricas.
Por Tércio Silva
Nos últimos anos, uma mudança importante ocorreu na forma como nomeamos o teatro destinado às crianças: “teatro infantil” foi, pouco a pouco, substituído por “teatro para crianças”, depois por “teatro para as infâncias”, “artes para as infâncias”, “cultura das infâncias” e “novos públicos”.
Essa mudança não aconteceu por acaso.
Por muito tempo, a expressão “teatro infantil” carregou consigo uma ideia de arte menor: espetáculos simplificados, excessivamente pedagógicos, histórias moralizantes, personagens estereotipados, produções tratadas como uma espécie de estágio anterior ao “teatro de verdade”. Então, mudar a maneira de nomear esse campo também foi uma forma de reivindicar sua complexidade.
Falar em infâncias, no plural, trouxe uma contribuição fundamental: não existe uma infância universal.
A experiência de uma criança indígena na Amazônia não é a mesma de uma criança criada no centro de uma grande capital. A infância atravessada pela pobreza não é a mesma de uma infância cercada por privilégios. Existem diferentes territórios, culturas, corpos, famílias, condições econômicas, afetos e formas de compreender o mundo.
O plural nos ajudou a enxergar tudo isso.
Mas toda palavra que ganha força também corre o risco de perder significado e, talvez, a terminologia “as infâncias” já esteja chegando a esse ponto.
Quando a palavra passa a valer mais do que a criança
Hoje encontramos “as infâncias” em festivais, editais, congressos, projetos culturais, releases, mesas de debate, políticas públicas e discursos institucionais.
“As infâncias precisam ser ouvidas.”
“Um espetáculo que celebra as infâncias.”
“Um projeto pensado para acolher as infâncias.”
“As infâncias no centro.”
Nada disso está necessariamente errado.
O problema começa quando a palavra passa a funcionar como uma espécie de certificado moral.
Basta escrever “infâncias” e aparentemente já demonstramos sensibilidade, contemporaneidade, escuta e compromisso com as crianças.
Mas será?
Às vezes, tenho a sensação de que construímos um vocabulário sofisticado ao redor delas enquanto continuamos oferecendo às crianças exatamente o mesmo lugar de antes.
Elas aparecem no título do projeto, na justificativa do edital, na fotografia de divulgação e na prestação de contas, mas pouco interferem verdadeiramente no pensamento artístico que produziu aquela obra.
Nesse momento, “as infâncias” deixam de ser uma questão e passam a ser uma moeda de troca.
Uma palavra capaz de conferir legitimidade a um projeto.
Uma senha para determinados circuitos.
Uma categoria de programação.
Um argumento para financiamento.
Uma estratégia de comunicação.
E talvez esse seja um dos perigos que precisamos enfrentar.
Porque uma palavra criada para ampliar nossa compreensão sobre as crianças pode, paradoxalmente, começar a escondê-las.
A criança ideal
Existe ainda outra questão que me incomoda.
Ao redor desse discurso sobre “as infâncias”, frequentemente construímos uma imagem muito específica da criança: delicada, pura, sensível, vulnerável, lúdica, imaginativa.
Como se crianças fossem feitas apenas dessas coisas.
Não são.
Crianças sentem raiva.
Sentem ciúme.
Mentem.
Disputam.
Têm medo.
Percebem relações de poder.
Reconhecem injustiças.
Perguntam sobre dinheiro, sexo, morte, violência, religião, política.
Podem ser extremamente generosas e profundamente cruéis cinco minutos depois.
São contraditórias porque são humanas.
E talvez um dos grandes equívocos do teatro feito para crianças seja confundir respeito com proteção excessiva.
Retiramos da obra aquilo que consideramos difícil.
Explicamos demais.
Simplificamos conflitos.
Criamos finais tranquilizadores.
Transformamos o teatro numa extensão da pedagogia.
Tudo em nome de “proteger as infâncias”.
Mas proteger uma criança não significa esconder dela a existência do mundo.
Talvez arte seja justamente um dos lugares seguros onde ela possa encontrá-lo.
Quem estamos tentando proteger?
Essa questão interessa-me particularmente quando penso em Brecht para crianças.
Brecht nunca esteve interessado em oferecer ao espectador um mundo confortável. Seu teatro pergunta: por que as coisas são assim? Quem ganha com isso? Poderiam ser diferentes?
Por que uma criança não poderia fazer essas perguntas?
Quando criamos Bertoldo – O Tubarão que Queria Ser Gente, a partir de Se os tubarões fossem homens, não partimos da ideia de que determinadas questões seriam complexas demais para crianças.
Pelo contrário.
Partimos da confiança de que elas seriam capazes de construir suas próprias relações com aquilo.
Não necessariamente as mesmas relações de um adulto.
E isso é importante.
Uma criança não precisa compreender uma obra da maneira como um adulto compreende para que a experiência seja legítima.
Aliás, talvez seja justamente essa expectativa que continue revelando o nosso adultocentrismo: queremos determinar antecipadamente aquilo que a criança deve compreender, sentir e levar consigo ao sair do teatro.
Chamamos isso de mediação.
Às vezes é apenas controle.
Teatro infantil, teatro para crianças, teatro para as infâncias
As nomenclaturas contam também a história da maneira como pensamos esse campo.
Teatro infantil durante muito tempo definiu o gênero.
Depois, passamos a preferir teatro para crianças, deslocando a infantilização da própria obra e reconhecendo melhor seu destinatário.
Mais recentemente, teatro para as infâncias buscou ampliar esse entendimento, reconhecendo a diversidade das experiências infantis.
Cada mudança trouxe ganhos.
Não acho que precisemos simplesmente jogar essas palavras fora.
Mas talvez seja importante impedir que elas tornem-se dogmas.
Tenho pensado, inclusive, se não seria interessante voltar a dizer, sem qualquer constrangimento:
Faço teatro para crianças.
Há algo radicalmente simples nessa frase.
Não preciso transformar a criança em conceito para reconhecer sua complexidade.
Posso produzir uma obra sofisticada, contraditória, política, engraçada, estranha, musical, assustadora ou poética e ainda dizer que ela foi criada para crianças.
Talvez seja justamente isso que precisamos reivindicar.
Teatro em relação com crianças
Há outra expressão que ultimamente me interessa ainda mais: teatro em relação com crianças.
Porque ela muda discretamente o lugar que ocupamos.
Quando digo “para”, continuo sendo aquele que produz alguma coisa destinada a alguém.
Quando digo “em relação”, reconheço que algo acontece entre nós.
A criança deixa de ser apenas destinatária.
Ela interfere.
Responde.
Recusa.
Ri quando não esperávamos.
Fica em silêncio justamente quando imaginávamos uma gargalhada.
Pergunta coisas que desmontam nossa dramaturgia inteira.
Quem trabalha verdadeiramente diante de crianças conhece essa experiência.
Talvez seja por isso que o teatro para crianças possa ser tão desafiador: existe muito pouco espaço para convenções vazias.
Crianças abandonam rapidamente aquilo que não estabelece relação com elas.
Para além da nomenclatura
Talvez daqui a alguns anos surja uma nova expressão.
Depois outra.
E outra.
Isso não me preocupa.
A linguagem precisa mudar porque o pensamento também muda.
O problema aparece quando acreditamos que mudar a palavra significa necessariamente mudar a prática.
Podemos abandonar “teatro infantil”, adotar “teatro para as infâncias”, escrever projetos impecavelmente alinhados com o vocabulário contemporâneo e continuar produzindo um teatro profundamente adultocêntrico.
Também podemos dizer simplesmente “teatro para crianças” e produzir uma obra que verdadeiramente reconheça aquele espectador como sujeito.
Por isso, talvez a pergunta mais importante não seja:
Como devemos chamar o teatro que fazemos para crianças?
Talvez seja:
Que criança imaginamos quando estamos criando?
Uma criança que precisa receber alguma coisa de nós?
Uma criança que precisamos ensinar?
Uma criança que precisamos proteger?
Ou uma pessoa que, mesmo estando há pouco tempo no mundo, já observa, interpreta, discorda e produz pensamento sobre ele?
Quanto mais penso nisso, menos me interessa celebrar uma ideia abstrata de infância.
Interessa-me encontrar crianças reais.
Com suas perguntas inconvenientes, seus desejos, suas diferenças, seus medos, suas contradições e sua enorme capacidade de imaginar.
Se a expressão “as infâncias” ainda nos ajuda a enxergar tudo isso, que continue conosco.
Mas, quando ela servir apenas para tornar um projeto mais vendável, um discurso mais elegante ou uma instituição aparentemente mais progressista, talvez seja necessário desconfiar.
Porque a criança não pode existir apenas como justificativa do nosso trabalho.
Muito menos como moeda de troca.
No fim, talvez o compromisso seja bem mais simples; e muito mais difícil: fazer um teatro que confie na inteligência das crianças.