O mundo falha com as crianças: por que o teatro para as infâncias é uma urgência ética
21 de setembro de 2026
Nos últimos dias, uma tragédia amplamente noticiada no Brasil voltou a expor, de maneira brutal, uma ferida que nossa sociedade insiste em não encarar: crianças continuam pagando, muitas vezes com a própria vida, pelas guerras dos adultos.
Um homem matou os próprios filhos e, em seguida, tirou a própria vida. Em torno do caso, como costuma acontecer diante de crimes dessa natureza, rapidamente surgiram narrativas sobre crise conjugal, separação, ciúme, traição, ressentimento. A atenção pública se desloca para a intimidade do casal, para o comportamento da mulher, para as possíveis motivações do agressor, para aquilo que aconteceu antes.
E, nesse movimento, quase desaparece aquilo que deveria ser o centro de tudo:
as crianças foram transformadas em alvo.
Antes de qualquer discussão sobre o relacionamento dos adultos, existiam ali crianças com direito à vida, à proteção, ao cuidado e à possibilidade de crescer.
Quando uma criança é usada para ferir outro adulto, revela-se uma das faces mais perversas da maneira como ainda compreendemos a infância. Ela deixa de ser reconhecida como sujeito e passa a ser tratada como extensão de alguém: “meu filho”, “sua filha”, “nossos filhos”. Como se o pronome possessivo pudesse significar posse.
Não pode.
Filhos não pertencem aos pais.
Crianças não são propriedade, instrumento de vingança, moeda afetiva ou território de disputa.
São pessoas.
E talvez ainda não tenhamos compreendido inteiramente a dimensão dessa afirmação.
Quando a criança deixa de ser sujeito
A crueldade do mundo contra as crianças não aparece apenas nos acontecimentos extremos que ocupam as manchetes.
Ela também está na vida cotidiana.
Está na criança que fala e ninguém escuta.
Na criança sobre quem todos os adultos conversam, mas a quem ninguém pergunta nada.
Na criança obrigada a se adequar permanentemente ao tempo dos adultos.
Na ideia aparentemente inocente de que ela “não entende”.
Entende muito mais do que costumamos admitir.
Isso não significa que uma criança compreenda acontecimentos da mesma maneira que um adulto. Evidentemente não. Mas ela percebe atmosferas, tensões, ausências, gestos, mudanças de comportamento, medos, silêncios.
Antes mesmo de possuir palavras suficientes para organizar aquilo que experimenta, já existe experiência.
E talvez uma das nossas maiores responsabilidades seja justamente esta: oferecer linguagem para que aquilo que é vivido possa encontrar forma.
A história nos ajuda a perceber que nem sempre olhamos para as crianças da maneira como olhamos hoje.
Philippe Ariès, em sua obra pioneira sobre a história social da infância, colocou no centro do debate a ideia de que nossa maneira de compreender a infância possui uma história. Suas teses foram amplamente discutidas, revistas e contestadas por historiadores posteriores, mas sua contribuição permanece fundamental ao demonstrar que as relações entre adultos e crianças, assim como aquilo que entendemos por infância, transformam-se social e culturalmente ao longo do tempo.
Ou seja: não existe apenas uma infância biológica.
Existem também maneiras sociais de reconhecer — ou de não reconhecer — a criança.
E talvez uma das permanências mais inquietantes da história seja justamente a dificuldade de aceitá-la como sujeito pleno no presente.
Falamos constantemente que “as crianças são o futuro”.
A frase parece bonita.
Mas pode carregar uma violência silenciosa.
Porque a criança não é importante apenas pelo adulto que um dia poderá se tornar.
Ela importa agora.
O teatro para as infâncias não é um gênero menor
É justamente aqui que minha prática artística atravessa essa reflexão.
Quanto mais trabalho com teatro para crianças, mais me convenço de que não estamos falando simplesmente de um segmento do mercado cultural.
Não estamos falando de uma programação específica para preencher as tardes de sábado.
Não estamos falando de uma espécie de estágio preparatório para que alguém, no futuro, aprenda a gostar de “teatro de verdade”.
O teatro para as infâncias é teatro.
E mais do que isso: diante de uma sociedade que frequentemente silencia, simplifica ou subestima as crianças, criar artisticamente para elas se torna também um gesto ético.
Porque fazer teatro para uma criança parte de uma escolha radical:
reconhecer que existe pensamento diante de nós.
Existe inteligência.
Existe sensibilidade.
Existe contradição.
Existe medo.
Existe desejo.
Existe curiosidade.
Existe capacidade de interpretar o mundo.
Durante muito tempo — e ainda hoje — parte significativa da produção cultural destinada às crianças partiu de duas ideias igualmente limitadoras: ou a criança precisava ser protegida de qualquer complexidade ou precisava ser ensinada por adultos que supostamente conheciam todas as respostas.
Suzanne Lebeau, uma das dramaturgas que mais profundamente transformaram a escrita teatral para jovens públicos, questiona justamente essa perspectiva. Ao longo de sua trajetória, ela tem defendido uma dramaturgia que não olha a criança “de cima para baixo”, mas procura aproximar o olhar do adulto daquele da criança para observar, juntos, o mundo.
É uma mudança imensa.
Não escrever para ensinar a criança a viver.
Não escrever para lhe entregar respostas.
Mas escrever reconhecendo que ela já está vivendo — e já está fazendo perguntas.
Lebeau também nos lembra, por sua prática, que os limites do que pode ou não ser abordado no teatro para crianças são frequentemente estabelecidos pelos adultos, e não pelas próprias crianças.
Talvez devêssemos prestar mais atenção nisso.
Proteger não é esconder
Existe uma diferença fundamental entre proteger uma criança e esconder o mundo dela.
Proteger não significa criar uma bolha de felicidade artificial.
Proteger é construir mediações.
É oferecer palavras, metáforas, imagens, histórias, músicas e personagens que permitam à criança entrar em contato com aquilo que talvez já esteja sentindo, mas ainda não consiga nomear.
A morte existe.
O medo existe.
A separação existe.
A violência existe.
A solidão existe.
O abandono existe.
A desigualdade existe.
As crianças não passam a conhecer essas experiências porque o teatro decidiu falar sobre elas.
Muitas já convivem com elas.
A questão, portanto, não deveria ser simplesmente:
“Podemos falar disso com crianças?”
Talvez a pergunta mais importante seja:
Como podemos falar disso artisticamente, sem violentá-las, sem subestimá-las e sem abandoná-las diante do tema?
É aí que mora uma das grandes responsabilidades de quem cria para as infâncias.
Porque esconder não necessariamente protege.
Às vezes, esconder significa deixar uma criança sozinha diante de alguma coisa para a qual ainda não encontrou palavras.
O teatro como território simbólico
A arte ainda é frequentemente tratada como uma espécie de luxo social. Algo que viria depois da saúde, da educação, da segurança, da alimentação e das demais necessidades consideradas “reais”.
É uma compreensão extremamente limitada do que a experiência artística pode produzir.
O teatro não substitui política pública.
Não substitui assistência social.
Não substitui proteção jurídica.
Não substitui escola, família, saúde ou cuidado.
E certamente não impede, sozinho, a violência.
Mas ele pode produzir algo de que nenhuma sociedade deveria abrir mão:
um território simbólico para experimentar o mundo.
No palco, o medo pode ganhar um corpo.
A perda pode ganhar uma imagem.
O conflito pode existir sem necessariamente terminar em destruição.
Aquilo que parecia impossível de dizer pode aparecer através de uma personagem, de uma música, de um objeto, de um gesto.
A metáfora permite aproximar-se do que dói sem necessariamente ser esmagado por aquilo.
É uma das forças extraordinárias da ficção.
Suzanne Lebeau já chamou atenção para esse paradoxo: uma situação ficcional apresentada diante da criança no teatro pode produzir um impacto extraordinariamente concreto. A ficção, justamente porque cria distância, pode nos aproximar da realidade.
Talvez por isso o teatro seja tão necessário.
Ele não oferece apenas respostas.
Ele oferece formas.
A violência também possui uma história
Édouard Louis, em livros como O Fim de Eddy e História da Violência, construiu uma literatura profundamente atravessada pela tentativa de compreender como a violência se inscreve nos corpos e nas relações.
Em sua obra, a violência nunca aparece simplesmente como um raio que caiu do céu.
Ela está relacionada a estruturas sociais, pobreza, masculinidade, vergonha, classe, homofobia, poder, silenciamento.
Isso não significa retirar a responsabilidade individual de quem pratica a violência.
Ao contrário.
Significa compreender que responsabilizar alguém por um ato e investigar as estruturas que tornam determinados atos possíveis são movimentos que podem coexistir.
Quando um adulto transforma crianças em instrumentos de punição contra outro adulto, não estamos diante de uma história de amor que “terminou mal”.
Também não deveríamos naturalizar expressões como “crime passional”, como se a paixão pudesse explicar aquilo que é fundamentalmente exercício de violência e poder.
É preciso olhar para aquilo que ensinamos sobre amor, posse, masculinidade, autoridade, família e controle.
Porque nenhuma criança deveria pagar pelo fracasso afetivo dos adultos.
Fazer teatro para as infâncias é produzir presença
Existe uma expressão usada frequentemente quando falamos de teatro para crianças: formação de público.
Sempre tive algum incômodo com ela.
É claro que aproximar crianças das artes pode contribuir para que elas continuem frequentando espaços culturais ao longo da vida.
Mas essa não pode ser nossa justificativa principal.
Uma criança não precisa assistir a teatro hoje para se transformar em espectadora amanhã.
Ela merece assistir a teatro hoje porque já é espectadora hoje.
Não fazemos arte para crianças apenas para formar futuros adultos sensíveis.
Fazemos porque reconhecemos a sensibilidade que já existe nelas.
Talvez possamos substituir a ideia de “formar público” por algo maior:
formar possibilidades de mundo.
Criar espaços onde seja possível experimentar outras relações.
Onde força não seja sinônimo de violência.
Onde amor não seja sinônimo de posse.
Onde diferença não seja ameaça.
Onde tristeza possa existir sem vergonha.
Onde perguntar seja mais importante do que obedecer.
Onde imaginar outro desfecho seja permitido.
Não porque o teatro vá ensinar uma moral.
Mas porque toda experiência artística verdadeira amplia a quantidade de mundos que conseguimos imaginar.
E uma criança capaz de imaginar outros mundos sabe, pelo menos, que o mundo que recebeu dos adultos não é o único possível.
A infância precisa existir no presente
Talvez o mais perverso seja perceber que constantemente dizemos amar as crianças enquanto construímos um mundo cada vez menos preparado para recebê-las.
Queremos crianças silenciosas nos restaurantes.
Imóveis nos teatros.
Comportadas nos aviões.
Produtivas nas escolas.
Adaptadas às agendas dos adultos.
Queremos que amadureçam rapidamente.
Que aprendam rapidamente.
Que respondam rapidamente.
Que parem rapidamente de chorar.
E depois nos espantamos quando percebemos que estamos diminuindo o território da infância.
É urgente devolver às crianças o direito ao tempo.
O direito à imaginação.
O direito à pergunta.
O direito ao medo.
O direito ao silêncio.
O direito ao barulho.
O direito à contradição.
O direito de ainda não saber.
E também o direito à arte.
Não como prêmio.
Não como distração.
Não como atividade complementar.
Como parte da experiência de estar vivo.
O mundo falha com as crianças
Tragédias envolvendo crianças não podem ser consumidas simplesmente como mais um episódio do espetáculo cotidiano da violência.
Não deveríamos sair delas perguntando apenas quem traiu quem, quem deixou quem, o que aconteceu no casamento ou quais eram os conflitos particulares entre aqueles adultos.
Há uma pergunta anterior:
em que momento as crianças deixaram de ser vistas como pessoas que precisavam ser protegidas daquele conflito?
Essa pergunta não pertence apenas à família envolvida.
Ela é nossa.
Pertence às instituições.
À escola.
À Justiça.
À cultura.
À imprensa.
Às políticas públicas.
Às famílias.
E pertence também a nós, artistas.
O teatro para as infâncias não vai salvar sozinho uma sociedade de sua violência.
Seria ingênuo e até injusto exigir isso da arte.
Mas ele pode fazer alguma coisa menor e, justamente por isso, imensa:
pode construir um lugar onde uma criança seja reconhecida.
Onde alguém fale com ela sem diminuí-la.
Onde seus medos não sejam ridicularizados.
Onde sua inteligência não seja subestimada.
Onde a complexidade do mundo não seja escondida, mas transformada em experiência sensível.
Onde ela possa olhar para aquilo que acontece no palco e perceber, talvez sem conseguir formular exatamente assim:
o que eu sinto também pode ser dito.
Num mundo que tantas vezes falha com as crianças, fazer teatro para as infâncias é insistir na possibilidade de outra relação com elas.
Uma relação em que a linguagem ocupe o lugar da violência.
Em que o cuidado não seja confundido com posse.
Em que a escuta venha antes da imposição.
Em que a imaginação não seja tratada como fuga, mas como possibilidade.
E, sobretudo, em que a criança não seja reconhecida apenas como promessa de futuro.
Mas como alguém que está aqui.
Agora.
Inteira.
Talvez esse seja um dos compromissos mais profundos de quem decidiu criar para as infâncias:
não falar apenas sobre elas.
Não falar apenas por elas.
Mas construir um mundo em que elas possam, finalmente, ser escutadas.
Tércio Silva
Artista da Cultura da Infância
Diretor da Buia Teatro Company