As infâncias no mundo: você já foi gentil com uma criança hoje?
21 de setembro de 2026
Nos últimos 40 dias, fui convidado a contribuir com um festival internacional realizado no interior da França. Durante esse período, tive a oportunidade de assistir a muita coisa interessante produzida para as infâncias — trabalhos potentes, sensíveis, provocadores —, mas também a muitas experiências que ainda deixam a desejar quando pensamos, de fato, nos pequenos.
Nessa viagem, estive acompanhado da minha filha, de apenas 18 meses. Fazer essa imersão ao lado dela tornou a experiência ainda mais instigante. Passei a observar não somente os espetáculos, mas também os espaços, as relações e as cidades através da presença de uma criança tão pequena.
Abro aqui um parêntese necessário: minha filha não pode ser tomada como referência absoluta para pensar as infâncias. Ela é uma criança específica, inserida em determinado contexto familiar, social e econômico, e que possui privilégios que muitas outras crianças não possuem. Ainda assim, acompanhá-la durante essa viagem provocou-me perguntas importantes.
Uma delas não saiu mais da minha cabeça: as crianças estão realmente no centro da pesquisa do teatro para as infâncias? Outra: nós, pesquisadores, encenadores, dramaturgos, compositores e artistas, apenas as colocamos no centro do discurso porque precisamos preencher uma determinada lacuna chamada “teatro para crianças”?
Existe uma diferença enorme entre produzir algo destinado às crianças e construir uma experiência verdadeiramente pensada a partir delas.
Aproveitei essa viagem de trabalho também para tirar alguns dias de férias. E, fora dos teatros e festivais, comecei a perceber, com mais clareza, como o mundo dos adultos continua sendo pouco gentil com as crianças.
Uma criança de 18 meses não pode chorar em um restaurante sem provocar olhares. Não pode inquietar-se em determinados espaços sem que alguém demonstre incômodo. Não pode simplesmente existir com toda a intensidade, imprevisibilidade e vulnerabilidade próprias da primeira infância.
Uma situação que vivemos em Viena ficou especialmente marcada em mim. Fomos surpreendidos por uma tempestade, com chuva e ventos muito fortes, e entramos em um restaurante em busca de abrigo. O salão estava praticamente vazio. O rapaz que nos recebeu foi gentil e acomodou-nos em uma mesa no centro do espaço. O restaurante tinha uma bela vista para o canal.
Pouco depois de sentarmo-nos, minha filha começou a chorar.
Uma turista que estava em outra mesa reclamou, em voz alta, que estávamos atrapalhando sua vista. Mas ficou evidente, até mesmo pelo tempo durante o qual ficou encarando nossa filha com expressão de reprovação, que a questão não era exatamente a paisagem.
Era a presença daquela criança.
A situação tornou-se tão desconfortável que dissemos, também em voz alta, que não poderíamos permanecer ali porque aparentemente estávamos incomodando aquela senhora, que não parava de olhar de maneira hostil para nossa filha.
Ela começou a debochar de nós. Em determinado momento, retirou uma nota de 100 euros e passou a abanar-se com ela.
Havia muitos signos naquela imagem: classe, poder, arrogância, intolerância e uma ideia bastante evidente de quem teria ou não o direito de ocupar aquele espaço.
Saímos dali.
Mas aquela cena permaneceu comigo por vários dias.
Fiquei pensando em quantos pais, mães e responsáveis deixam de frequentar determinados lugares porque sabem que seus filhos serão vistos como um problema. Quantas famílias deixam de viajar, de ir a restaurantes, museus, espetáculos ou eventos culturais por medo do julgamento quando uma criança chora, corre, fala alto, inquieta-se ou simplesmente age como criança.
Inevitavelmente, voltei a pensar no teatro.
O teatro que estamos criando dentro das nossas pesquisas é realmente acessível e acolhedor para as famílias?
As crianças estão, de fato, no centro dessas experiências?
Porque colocar uma criança sentada diante de um palco não significa necessariamente colocá-la no centro de uma criação.
Pensar teatro para as infâncias exige considerar seu tempo, seu corpo, sua escuta, sua possibilidade de movimento, sua curiosidade, sua imprevisibilidade e até mesmo seu direito de não permanecer sentada ou silenciosa durante cinquenta minutos.
Exige também pensar nas famílias que acompanham essas crianças.
Ainda são poucos, no Brasil e em diferentes partes do mundo, os pesquisadores, encenadores, dramaturgos, compositores e instituições que se dedicam profundamente às particularidades desse público tão fundamental.
Enquanto isso, as crianças continuam sendo invisibilizadas.
E, paradoxalmente, quando deixam de ser invisíveis, muitas vezes passam a ser vistas como incômodo.
Elas atrapalham o restaurante, o avião, o passeio, o espetáculo, a rotina, o silêncio, a viagem e os planos dos adultos.
Talvez por isso seja urgente pensar não somente em espetáculos para crianças, mas em ambientes culturais para as infâncias.
Eventos em que crianças e famílias sejam verdadeiramente acolhidas. Espaços em que o choro não seja imediatamente entendido como perturbação. Em que seja possível sair e voltar para uma sala. Em que existam lugares de descanso, alimentação, troca de fraldas e brincadeira. Em que os horários considerem as rotinas das crianças. Em que os adultos responsáveis por elas também se sintam acolhidos.
Pensar teatro para as infâncias é pensar além da caixa-preta.
É pensar arquitetura, cidade, circulação, hospitalidade, mediação, alimentação, acesso, duração, horários e relações humanas.
É perguntar constantemente: que mundo estamos construindo ao redor das nossas crianças?
Sigo pensando nos desafios que teremos de enfrentar nos próximos anos. Porque tenho a sensação de que, à medida que a infância desaparece do cotidiano dos adultos, também perdemos a capacidade de conviver com suas particularidades.
Talvez precisemos começar pelas pequenas coisas.
Durante essa viagem, pensei que deveríamos criar uma campanha quase global, uma pergunta simples que pudesse circular durante alguns anos por escolas, teatros, festivais, restaurantes, aeroportos, museus, transportes públicos e cidades: você já foi gentil com uma criança hoje?
Talvez essa pergunta pareça pequena diante de tantos problemas. Mas talvez não seja.
Porque uma sociedade capaz de ser gentil com uma criança é também uma sociedade capaz de reconhecer que existem outros tempos, outras necessidades, outras maneiras de experimentar o mundo.
E talvez seja exatamente por aí que devamos começar.